Milagres-Bahia

Milagres-Bahia.jpg

Milagres é um município brasileiro do estado da Bahia. Localiza-se a uma latitude 12º52’12” sul e a uma longitude 39º51’32” oeste, estando a uma altitude de 419 metros. Sua população estimada em 2010 era de 10.306 habitantes.

Milagres.png

História

Serra do Gavião, região de mata bruta, de trilha estreita para o sertão, aberta pelo pisotear constante de cavalos e cavaleiros, viandantes, tropeiros, comerciantes, vaqueiros, mascates e boiadeiros, em meio a agreste caatinga, com destino quase sempre à Maracás, Tamburi, Lençóis… A altivez dos montes, a gruta na rocha, a fonte de água cristalina perenemente a jorrar o vale a enriquecer a paisagem, não cansavam o olhar admirado daqueles que diariamente por ali passavam. Olhos atônitos, curiosos, perscrutadores, começaram a constatar a visão de uma jovem vestida de branco, a passear no topo do Morro da Bandeirinha, ou Morro da Lapa, assim chamado, por abrigar no seu bojo a Gruta da Lapa, como se quisesse lembrar aquela a Lapinha de Belém, onde Jesus nasceu.
A repetitiva visão inquietava os viandantes e despertava a curiosidade de outros tantos, que por ali passavam e queriam saber de quem se tratava, pois a notícia se espalhava por toda a redondeza. Por mais que tentassem aproximar-se ninguém conseguia alcançá-la. Ela era fugidia e de extraordinária beleza. Todos tentavam ver a misteriosa figura.

Passando por esse lugar um frade franciscano de nome Frei Luiz Maria Bento, ou Frei Luiz de Giove e sabendo dos recentes comentários, pernoitou na Fazenda Quixabas, para no dia seguinte percorrer o caminho que o conduziria ao Morro da Lapa, não muito fácil de vencer no tempo de um só dia, pois íngreme era o caminho, e avançada hora, o sol já se punha. Ao amanhecer, entre o ímpeto e a cautela, silencioso e prudente, o religioso rumou para o local. Acredita-se que também ele pode ter observado algo de misterioso ou de impressionante, permanecendo por mais alguns dias para a constatação dos fatos. É crível que o franciscano, encontrou uma imagem da Virgem Maria. Possivelmente numa das suas andanças pelo Morro, não se sabe deixada por quem. Afagando-a ao peito, desceu com ela para deixá-la até hoje nas mãos e no coração de tanta gente.

Reflexivo e absorto, sem deixar escapar um menor detalhe, perscrutador, cônscio de que há realidades que não enxergamos a sensibilidade visual, quis de logo relatar os fatos, os boatos e o achado aos seus superiores para melhor análise da Igreja. Anunciou de pronto um período de nove dias para a realização de Santas Missões. Providenciou a implantação de um Cruzeiro de madeira, na parte mais baixa do lugar, ficando o Lenho Sagrado como o marco primeiro desta terra. A primeira ermida foi feita de taipa e coberta de palhas. Durante o tempo das missões conclamou o povo a oração, e pediu que fossem colocando pedras para a construção de uma Igreja onde deveria ser colocada a imagem encontrada e que ficou intitulada por Nossa Senhora de Brotas.

A localidade, patrimônio do Chefe Fazendeiro, Joaquim da Costa Galvão, homem católico e generoso, sensibilizado, quis doar parte dos seus pertences à Igreja, doação registrada como Patrimônio da Casa de Oração de Nossa Senhora de Brotas e tratou de construir a princípio, uma ermida de taipa, coberta de palhas, onde foi colocada a imagem. Delegou ao seu administrador, José da Costa Galvão, a condução dos trabalhos de construção da Capela. A conclusão da obra deu-se a 08 de novembro do ano de 1862, dia de festa e de intensa romaria, com a presença do seu benfeitor Joaquim da Costa Galvão e de toda a sua família.

A história registra pessoas que construíram a choupana e o templo tais como Vicente Caboclo e Ursulino Campos. Orgulhosos eles contavam que suas mãos edificaram a Igreja de Nossa Senhora de Brotas. O seu ganho era de meia pataca ou cento e sessenta reis. A benfazeja passagem do Frei Luiz e o início das Santas Missões, datam de 30 de novembro de 1840.

O lugar pertencia a freguesia de Pedra Branca, que era uma aldeia de caboclos, assistida pelo Cônego Leovigildo José da Silva Freire, que cuidava da catequese dos índios. O chefe da aldeia, era o cacique Pedra Branca, o que originou o nome do local. Contava o Cônego Leovigildo que vinha constantemente celebrar missa no lugar dos milagres. Eram sempre muito freqüentadas. A devoção crescia e falava-se muito em graças alcançadas, em milagres realizados. A peregrinação ia aumentado a cada tempo.

No ano de 1921, o Padre Moysés da Silva Freire, assumiu o pastoreio da pequena comunidade. Era sobrinho do Cônego Leovigildo. Veio como vigário da Freguesia de Monte Cruzeiro e Pedra Branca. Celebrou sua primeira missa no dia 2 de fevereiro de 1922. Encantou-se com a mística do lugar, a freqüência dos romeiros, a perseverança dos peregrinos… emocionava-o cada expressão de fé, cada traço daqueles rostos, cada gesto daquelas mãos… gente simples, gente douta, de longe e de perto, de tantos recantos! Via comovido, o reabastecer de fé e da esperança de cada peregrino. Era mesmo ocasião para encontrar-se com Deus, numa profunda experiência de fé e de conforto espiritual, ao cumprirem o ritual próprio do romeiro.

Chegavam cantando, “Nossa Senhora, olha eu,/ Graças a Deus que eu cheguei,/ cheguei e me ajoelhei,/ Minha promessa eu paguei/ Graças a Deus que cheguei,/ Prá o ano eu torno voltar,/ Pros pés de vós eu beijar!”
Ao final de cada dia de romaria, assistia enternecido o momento das despedidas, com os hinos, cantos e benditos rasgando o sertão, como “Adeus, minha Mãe, adeus, / Adeus, que eu já vou-me embora. / Meu coração vai partido, / Por deixar Nossa Senhora”. Via extasiado, os acenos com os chapéus de palha decorados com fitas verdes ou azuis. Tanta gente que durante a estadia, cantarolavam ofícios e ladainhas, no latim aprendido pela escuta, e, sabe Deus, como era pronunciado. Iam-se todos, emocionados, lacrimosos, na vontade e na certeza do retorno no ano seguinte. Eram homens e mulheres, que vinham escutar a palavra de Deus. Alimentavam suas devoções, aprendiam a rezar, se encantavam com as pregações evangélicas, queriam conhecer Jesus, o Filho de Maria.

Aquele Padre entregou-se por inteiro ao trabalho pastoral. Estimulava de tal forma a sua missão, que um ano depois já não eram apenas 35 casas em volta da ermida. Muitas famílias já se estabeleciam no lugar. Começou a surgir o comércio local com a implantação de uma boa loja, uma casa de molhados, uma padaria… A feira livre, aos domingos estava crescendo, comercializando gêneros como farinha, verduras e frutas. Muitas rancharias começaram a ser construídas para abrigar os peregrinos que chegavam movidos pela fé. O Padre Moysés era incansável na missão e no labor. Mandou imprimir na Alemanha, registro (estampas) da Imagem de Nossa Senhora de Brotas tendo ao lado a nova Igreja.

No dia 2 de fevereiro do ano de 1923, foi realizada a primeira festa da Padroeira, Nossa Senhora de Brotas do Arraial de Milagres. A missa foi solene, cantada e campal. Teve a participação de sete padres, inclusive um frade franciscano, (não se sabe o nome). Milagres, graças, petições, orações, rezas e cantorias, ladainhas e ofícios, velas e retratos, prantos e louvores, uma multiplicidade de expressões de fé… assim nasceu e assim cresce as mais diversas formas de devoções, no ir e vir dos peregrinos, migrantes e caminheiros. Que devoção bonita, a dos devotos de Maria!
As romarias não paravam de chegar. Esse período se alongava até o último domingo do mês de abril, dia em que se celebrava a Festa do Senhor do Bonfim dedicada aos Vaqueiros.

Conta-se que pastores e vaqueiros, cuidavam dos seus rebanhos em volta e até em cima dos altos montes que compõem o relevo local. Num desses dias um vaqueiro descuidou-se e a sua novilha, escorregou e caiu morro abaixo. No afã de recuperar o seu bem, o vaqueiro montado tentou salvar o animal e também de lá despencou, do enorme precipício, de elevadíssima altura, indo cair no vale. Teve a sensibilidade e a “fé” de gritar: “Socorra-me Nossa Senhora de Brotas”. Esse homem e seus animais chegaram ilesos ao fim da tormenta. O fato ocorreu num último domingo do mês de abril, data em que se celebra o Dia do Senhor do Bonfim. A partir desse acontecimento, os vaqueiros se reuniam de forma solidária, para agradecer o milagre, e passaram a celebrar juntos a Santa Missa e a Procissão em honra ao Senhor do Bonfim, com a presença maternal de Maria.

Site oficial da cidade